Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Às Cavalitas do Vento

Seg | 22.10.18

Páginas Salteadas | Tagliatelle Ferrante al dente, uma viagem napolitana

paginas_salteadas_outubro_a_amiga_genial_elena_fer

 

É através de um prólogo cru, despido de assombro, desassossego e agitação – pelo menos por parte de Lénu, que rapidamente percebemos que, para além de envergar o papel de narradora, é uma das personagens centrais da história – que começa a desenrolar-se o novelo do primeiro volume da tetralogia napolitana de Elena Ferrante (seguem-se História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida, todos editados pela Relógio d’Água). A princípio, escutamos atentamente uma inesperada chamada telefónica entre Rino e Elena Greco, a tímida e insegura Lennucia, a partir do qual percebemos que Raffaella Cerullo, amiga de longa data da personagem feminina, desaparecera sem deixar uma única pista relativamente ao seu paradeiro. “Mandei-o procurar pela casa toda. Os sapatos dela, desaparecidos. Os poucos livros que possuía, desaparecidos. As fotografias, todas desaparecidas. (…) Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto. Agora, aos sessenta e seis anos, não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás”. Apesar de se mostrar visivelmente irritada com a decisão de afastamento de Lila, constatamos que não há estupefação na sua reação, talvez por saber de antemão que “a sua intenção foi sempre outra: queria volatizar-se; queria que todas as suas células desaparecessem; que dela não fosse possível encontrar nada. E como a conheço bem, ou pelo menos creio que conheço, tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo”.

 

Lançado o mote para a trama de A Amiga Genial, a misteriosa autora, que refugia a sua escrita num pseudónimo para que a sua escrita flua o mais livremente possível, convida-nos a viajar no tempo até aos subúrbios de uma Nápoles pobre, receosa, violenta e patriarcal, no pós Segunda Guerra Mundial. Submersos numa narrativa popular, célere, desconcertante, intimista e profunda, rapidamente começamos a assistir em primeiro plano e a experienciar intrinsecamente a vida quotidiana de, pelo menos, nove famílias italianas, mais necessitadas, vivendo, ao longo de 264 páginas, as suas tradições, os seus costumes, as suas submissões, as suas complexidades e os conflitos interiores, amorosos e familiares.

 

É desta teia visceral, grosseira, cativante e sem quaisquer paninhos quentes que brota a turbulenta amizade entre Lénu e Lila, que adquire os seus primeiros intrincados contornos na primeira classe. Apesar de ambas crescerem no seio de famílias remediadas (um pai porteiro na Câmara Municipal e outro sapateiro), as suas personalidades são absolutamente contraditórias: Lénu é estudiosa, pacata, acanhada, temerosa, instável e pouco segura do seu valor, procurando constantemente a aprovação dos outros – uma vez que sente sempre diminuida e como um último recurso para todos os que a rodeiam, ao passo que Lila é destemida, determinada, sagaz, indomável, maliciosa e fascinante, traços que, aos poucos, despertam inveja, repulsa, ambição, inspiração e desafio. Não há, portanto, espaço para a harmonia e a mansidão, ainda que, apesar de se digladiarem, as montanhas que as separam, acabam por ter um rio impetuoso que as atravessa e que acaba por, inevitavelmente, as ligar.

 

paginas_salteadas_outubro_a_amiga_genial_elena_fer

 

E vocês? Já tiveram oportunidade de ler A Amiga Genial? E os restantes volumes da coleção? Também ficaram seduzidos com a carga humana que reside no interior de cada personagem, graças à mestria das palavras descompassadas, rudes e reais de Elena Ferrante, que em violentos precalços e desventuras nos fascina? Se ainda não o fizeram, mas ficaram com vontade de partir à descoberta desta leitura intensa, magnetizante e viciante, depois de se demorarem nas quatro receitas de outubro do Páginas Salteadas, apressem-se a mergulhar nos 60 anos de história de Lénu e Lila, pois a HBO já lançou o trailer da série inspirada na obra. 

 

Tagliatelle Ferrante al dente

Ingredientes

Óregãos q.b.
Noz moscada
2 dentes de alho
Queijo parmesão
Tâmaras sem caroço
Cogumelos laminados
Tomate cherry biológico
Sementes de sésamo q.b.
Azeite biológico [Tojeira]
Folhas de hortelã biológica
Tomate concentrado [Mutti]
Flor de sal do Algarve com óregãos
350 gramas de massa com gengibre
Mistura de frutos secos biológicos [Gutbio]
1 c. de chá de pasta de amendoim [Seara]


Ao jeitinho do Ninho do Vento
Em primeiro lugar, temperem os cogumelos laminados com flor de sal, órgeãos e noz moscada (esta especiaria é o meu toque especial em qualquer receita que saia do meu caldeirão mágico). Durante o processo de cozedura da vossa massa aromatizada com gengibre, que demorará cerca de 10 minutos, coloquem um fio de azeite biológico numa frigideira wok. De seguida, adicionem os dois dentes de alho picados e deixem alourar. Assim que o lume estiver quente, basta combinarem os cogumelos laminados, a mistura de frutos secos, as sementes de sésamo, as tâmaras sem caroço, a pasta de amendoim, o tomate concentrado e algumas lascas de queijo parmesão. Assim que estes ingredientes começarem a ficar douradinhos, juntem a massa e envolvam o vosso preparado, para que o queijo comece a derreter sobre a pasta. Quando sentirem que a vossa iguaria italiana está no ponto, sirvam-na na vossa cerâmica favorita, com acabamentos toscos e imperfeitos (os mais especiais de tatear), e decorem com tomates cherry cortados em metades, lascas de queijo parmesão, óregãos secos, nozes e folhas de hortelã biológica. Viajem no tempo até à bota do planisfério, no período pós-guerra, recuperem a audácia que só a vossa alma solta de criança tem o dom de resgatar e repartam tesouros. A amizade verdadeira é a única luz que conseguimos embrulhar em organdi e oferecer à gaveta dos navios do coração que chegam a bom porto.

Acompanhem as receitas das bloggers do projeto Páginas Salteadas:
Catarina Sousa, Joan of July
Vânia Duarte, Lolly Taste
Andreia Moita, Andreia Moita Blog