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Às Cavalitas do Vento

Dom | 16.09.18

Páginas Salteadas | Bolo de laranja e alfarroba al Tetuão

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"De certa maneira, fazia-me recordar eu própria nos primeiros anos no ateliê da rua Zurbano, quando a minha obrigação era simplesmente correr de um lado para o outro fazendo recados e entregando encomendas, transpirando pelas ruas, ágil e despreocupada como um jovem gato vadio, distraindo-me com qualquer pequeno entretenimento que me permitesse roubar uns minutos à hora de regresso e demorar o mais possível o encerramento entre quatro paredes. A nostalgia ameaçou dar-me uma chicotada, mas soube afastar-me a tempo e esquivar-me com uma finta airosa: tinha aprendido a desenvolver a arte da fuga, de cada vez que pressentia próxima a ameaça da melancolia".

Esperam-vos horas e horas de episódios na Netflix (são 17 no total, com aproximadamente 50 minutos cada um) e, antes ou depois de se enamorarem pelas aventuras da modista madrilena Sira Quiroga (ou de Aris Agoriuq), outras tantas passadas a folhear as 624 páginas do livro de María Dueñas que inspirou a série. Ambos são um convite para viajar nas esquinas do tempo entre Tanger, Tetuão, Madrid e Lisboa (cosmopolita como ela só), entre esquissos, tecidos, retalhos, bainhas e linhas… de código - porque o destino teima em colocar a protagonista à prova e conduz a leitura da sua sorte até aos meandros da espionagem, entre a crise política vivida durante a Guerra Civil Espanhola e o despoletar da Segunda Guerra Mundial. Quem disse que o ofício de costureira não tinha mais pespontos ou remendos ainda por revelar? Percam-se neste romance que corre, imparável e vibrante, ao ritmo de um segredo, e deixe crescer em vós a vontade de vestir peças de alta costura feitas com a dedicação de uns dedos que nasceram para criar arte. Além disso, vão desejar ter aquela tez cor de canela e ter vontade de apertar as bochechas (uma cena que se repete na adaptação da obra literária para televisão), para adquirirem aquele rubor irresistível em frente ao espelho. 

 

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Costumo dizer que cresci rodeada de tecidos, botões, agulhas e dedais, e que a minha coleção de vestidos é tronco e ramo de uma infinitude de estórias felizes. Recordo-me de confecionar vestidos para as minhas bonecas com retalhos dos cintos que o pai fazia em casa, todas as noites, à média-luz da mesa da cozinha. Para alguns, as minhas peças de roupa podem ser meros trapos, mas, para mim que sou, orgulhosamente, filha de um retroseiro, neta de uma cerzideira e bisneta de uma costureira, as linhas, os remates e os remendos caminham entrelaçados à minha pele há já 30 anos. Nas peças vintage há recordações de outros destinos - tal como, para Sira, há lembranças de passeios à beira-mar em Tânger com o primeiro amor Ramiro, visitas às lojas de comércio tradicional do Chiado, aventuras apaixonantes e arriscadas com o misterioso jornalista britânico Marcus Logan e conversas com a amiga Rosalinda Fox no sumptuoso ateliê de Tetuão, com bolachas caseiras e chá preto Darjeeling feitos na hora pela aia Jamila.


Abracem também vocês uma missão inesquecível e deixem que esta se torne descompassada e fervilhante. Adocem-na com uma fatia de bolo marroquino de laranja, amêndoa e alfarroba, acompanhando-a de uma infusão de ervas, de especiariais, de tons e de fragrâncias do norte de África.

 

"Não significa que as nossas vidas tenham sido menos importantes. Porque, no fim e ao cabo, todos nós temos um papel no destino do mundo. E eu e o Marcus estivemos sempre do outro lado da História. Ativamente invisíveis naquele tempo em que vivemos entre costuras."


Bolo de laranja e alfarroba al Tetuão

Ingredientes

Canela q.b.
Noz-moscada q.b.
4 ovos [Matinados]
150 g de amêndoa com pele
Raspa de 1 limão biológico
1 colher de chá de fermento
Raspa de 1 laranja biológica
100 ml de óleo de coco [Origens]
200 g de açúcar de coco [Urtekram]
50 g de farinha de alfarroba [Seara]
50 g de farinha de amêndoa [Origens]
2 c. de chá de curcuma e pimenta preta [Iswari]

 

Calda
1 pau de canela
Sumo de 1 laranja
Sumo de 1/2 limão
Tomilho-limão q.b.
Gengibre ralado q.b.
2 folhas de manjericão biológico
2 folhas de hortelã biológica

 

Infusão caseira de menta e especiarias
[serve 2 pessoas]

Alcaçuz
Roseira brava
Paus de canela
Casca de laranja
Folhas de hortelã biológica
Folhas de manjericão biológico


Ao jeitinho do Ninho do Vento
Em primeiro lugar, moam a amêndoa com pele, mas tenham a máxima atenção à rotação do vosso robot de cozinha, para que o fruto seco não fique reduzido a farinha. Num recipiente, coloquem o açúcar, as farinhas de amêndoa e de alfarroba, o fermento, a canela, a noz-moscada, o mix de curcuma e pimenta preta, e a amêndoa triturada. De seguida, reservem outra taça para baterem os ovos e o óleo de coco. Agora já podem misturar os ingredientes secos com os líquidos, envolvendo-os. Adicionem as raspas dos citrinos e voltem a usar a batedeira. Resta só levarem a massa ao forno a 180º, numa forma previamente untada com óleo de coco e farinha de espelta. Se o vosso forno for elétrico e tiver a opção de ventilação, bastam apenas 35 minutos para verem o vosso bolo marroquino de laranja, alfarroba e amêndoa douradinho. Se não for o caso, aconselho-vos a deixarem a vossa especialidade apurar durante 50 minutos. Para prepararem a cobertura, coloquem os sumos cítricos, as folhas de manjericão e hortelã, os paus de canela e o gengibre ralado num tacho ao lume e deixem fervilhar o caldo. Quando este arrefecer, desenformem o bolo, piquem-no em várias zonas com um palito e reguem-no com o vosso frutado elixir, utilizando um passador para evitar derramar as ervas e as especiarias. Por fim, finalizem a decoração, polvilhando o círculo com a frescura do tomilho-limão. Sirvam uma fatia às vossas visitas, acompanhando o lanche com uma infusão caseira de menta e especiarias, para viajarem até Tânger-Tetuão.


Acompanhem as receitas das bloggers do projeto Páginas Salteadas:
Catarina Sousa, Joan of July
Vânia Duarte, Lolly Taste
Andreia Moita, Andreia Moita Blog