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Às Cavalitas do Vento

Ter | 23.07.19

Páginas Salteadas | Uma Escuridão Bonita com sabor a beijo, banana e amendoim

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"Às vezes é bom estarmos numa escuridão sozinha, de gruta e conforto, como se o nosso mundo, por alguns instantes, pudesse ser assim - sem tom de cor nem distração de forma. É bom dividir uma escuridão com outra pessoa, em concha e aconchego, como se dois mundos, nessas gotas de negrume, fossem um só."

A literatura africana tem sabor a maresia, calor, sal, rosa dos ventos, terra, infância. Descobri-a em 2009, a propósito do lançamento de Jesusalém, livro de Mia Couto, escritor moçambicano que entrevistei para a rúbrica “Um livro e um disco na mala de…” da revista Visão. Neste meu encontro cálido com o continente que pulsa de vida, numa mistura inquietante e explosiva, cerzi a delicada e cintilante seda da minha estória com Ondjaki (“guerreiro” na língua umbundu, das montanhas centrais de Angola), pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, prosador e poeta traduzido em mais de dez línguas. Foi então com a aquisição de “Avódezanove e o segredo do Soviético”, lido de fio a pavio numa tarde à beira-mar, na Fonte da Telha, que experimentei a palavra na sua forma mais poética e genuína. Desde esse dia, não mais quis soltar outro papagaio de papel que não na PraiadoBispo, que, por enquanto, vive apenas nas dunas da minha imaginação.

A verdade é que Ondjaki convida-me a abrir as gavetas mais especiais da minha infância, onde guardei o meu olhar de pura magia e os meus pés de laranja lima de faz de conta. Prémio Saramago e o Prix Littérature-Monde com a obra “Os Transparentes”, ele que é um dos maiores talentos da literatura lusófona tem um olhar infantil que faz com que “o mundo fique bonito de repente”, como partilha em “Uma escuridão bonita”, o livro escolhido para o desafio de julho do projeto Páginas Salteadas.

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Ondjaki teceu as primeiras linhas deste conto coberto pelo manto negro do céu em setembro de 2004, apesar da sua maturação ter demorado cerca de nove anos. À semelhança de alguns dos projetos de Afonso Cruz, em “Uma escuridão bonita” há um vínculo indizível entre as linguagens escrita e gráfica. Com ilustrações de António Jorge Gonçalves, aclamadas com o Prémio Nacional de Ilustração 2013, as 111 páginas negras, pinceladas a fonte branca e com lampejos de luz, são as peças deste puzzle de ânsia de toque entre dois adolescentes. “Na contraluz de um lugar minguante, podia ver os contornos grossos dos lábios dela, o queixo a imitar falésias, e dois brilhos apagados no lugar dos brilhos que um dia foram os olhos dela. Nesse silêncio, eu de olhos quase fechados, escutava o respirar dela."

É esta escuridão, da qual somos cúmplices e que “é uma esteira onde nos podemos deitar”, que encerra mistérios incandescentes e desvenda verdades decisivas. Não há medo do escuro e das sombras, nem das ameaçadoras e sobrenaturais entidades da nossa meninice, como a cuca ou o bicho-papão – há antes arrepios aprazíveis, confidências e paixões do tempo que acordam, navegam e adormecem com o salgadiço das ondas do mar. A contracapa da obra diz-nos que esta é “talvez, a simples estória de um beijo”, mas terminamos a leitura com a certeza de que fica tanto por descobrir no fundo do convés das emoções vividas naquela noite angolana.

Em 2014, Ondjaki confidenciou ao Jornal I que a sua “escuridão bonita”, que ganhou relevos em páginas foscas e poemas alvos em prosa doce, “é sobre o encantamento, na forma de amor, de um encontro, de um mistério: do como, quando, em que circunstâncias conhecemos os outros”. E, no fundo, basta mergulharmos na obscuridade das figuras de estilo para deixar a imaginação ser a didascália da nossa mais bela narrativa.

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Desde que experimentei as cartas dos restaurantes Casa Mocambo Espaço Espelho d'Água, que tem crescido em mim a vontade de saborear os intensos, tropicais e exóticos sabores do continente africano. E, embalada nesse fervor que é canto de chão, à [minha] mesa, não podem faltar cores cálidas e capulanas vibrantes, um amor temperado "com pimenta, canela, jindungo e açafrão", um pôr-do-sol fogosamente escarlate e fruta sumarenta: manga, goiaba, papaia, banana, coco e ananás, quase como se trauteasse o Amor de Água Fresca que sei com o coração. Do Novo Mundo chegou também ao calor áfrico o amendoim, ingrediente-semba que, em passo coordenado com os espinafres, compõe o delicioso caril servido no bairro que celebra a mestiçagem, Mocambo, a nova Madragoa.

Numa ligação entre a Terra-Mãe e os mundos espirituais, inventei-me numa receita saudável de beijinhos de coco, para enaltecer a candura e o encantamento do gesto que tem o poder de mudar tudo, mesmo na escuridão: o timbre do primeiro amor. O típico "qumbe" africano tem dialeto de quimbundo, é dengo, sedução, delicadeza e meiguice, e um alimento sagrado para Oxum, filha de Iemanjá e orixá que reina sobre a água doce dos rios, como senhora da beleza e protetora do poder feminino. Para acompanhar? O Grito da Bananeira, um mito africano que a Chandi Oliveira me deu a conhecer e que descreve o som produzido por estas árvores, no momento de "dar à luz" um cacho de bananas, como semelhante ao clamor primitivo da mulher. Também na casa da AvóDezanove de Ondjaki, personagem da obra A AvóDezanove e o Segredo do Soviético que revisita Uma Escuridão Bonita, havia sempre "restinhos de bolo de banana" para as crianças da PraiadoBispo obterem "informações secretas". Inspirada pelos raios de sol estivais, pelas batidas contagiantes de Mi Ma Bo de Sara Tavares (não querendo mesclar os paraísos à beira-mar de Angola e Cabo Verde, mas fazendo-o, porque ainda há tanto por sonhar, fazer, descobrir e sentir) e pela natureza exuberante, continuei o meu trilho pela terra pintada de um laranja quase vermelho, deitando raiz e experimentando ainda uma receita de Banana Split vegan, acompanhada de um batido fresco de banana e canela.

"Qumbe" de manteiga de amendoim, banana e coco
[conteúdo para cerca de sete trufas]

Ingredientes
Canela q.b.
Noz-moscada q.b.
12 tâmaras em caroço
1/2 chávena de sementes de girassol
1 colher de sopa de mel de flores biológico
2 colheres de sopa de bebida de aveia [Lidl]
2 colheres de chá de Macaccino Original [Iswari]
2 colheres de chá de Maca em pó [Iswari, no Celeiro]
1 cháv. de coco ralado biológico [Naturefoods, no Celeiro]
2 colheres de chá de Farinha de Banana [Iswari, no Celeiro]
2 colheres de sopa de manteiga de amendoim [Not Guilty]

Ao jeitinho do Ninho do Vento
Coloquem todos os ingredientes num robot de cozinha. Triturem tudo até obterem uma pasta consistente. Peguem em pequenas porções, formem pequenas bolas com as mãos e envolvam as vossas trufas em coco ralado- Coloquem no frigorífico durante 30 minutos a 1 hora. Sirvam numa taça de bambu, como se estivessem num frame do filme "Palmeiras na Neve"  ou a organizar um banquete para um episódio do programa gastronómico "Na Roça com os Tachos", de João Carlos Silva.

Banana Split
[serve duas pessoas]

Ingredientes

2 bananas
Nozes-pecã
Canela em pó q.b.
Noz-moscada em pó q.b.
1 colher de sopa de nozes-pecãs
1 colher de chá de óleo de coco [Origens]
Gelado de baunilha Bourbon biológico [Lidl
1 colher de sopa de mel de flores de laranjeira do Algarve [Serramel]

Ao jeitinho do Ninho do Vento
Descasquem as banana e cortem-nas ao meio longitudinalmente. De seguida, levem a fruta ao lume e fritem-na em óleo de coco, com a parte cortada voltada para baixo na frigideira, até alourar. Cinco minutos devem bastar! Retirem da fritura e disponham as metades simétricas num prato. Reguem-nas com mel e polvilhem-nas com canela, noz-moscada e nozes-pecã moídas. Finalizem com três bolas de gelado de baunilha biológico.

Acompanhem as receitas das bloggers do projeto Páginas Salteadas:
Vânia Duarte, Lolly Taste
Catarina Sousa, Joan of July
Andreia Moita, Andreia Moita Blog

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