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Às Cavalitas do Vento

Ter | 04.12.18

Qual é o vosso propósito nas redes sociais? Da construção de uma comunidade ao poder diferenciador da vossa voz digital

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Cinco dias sem publicar uma fotografia no meu feed de Instagram. A tragédia, a catástrofe, o clímax. “Ui, como assim, Joana? Que cisão vem a ser esta? Onde pairou a tua voz digital durante esta ausência-relâmpago?” Bem, esteve a ser utilizada offline (em verdade, amor e luz), sem “ativismismo de sofá” (como reiterou a minha parceira Vânia Duarte) e com um propósito maior: a concretização da segunda edição do Blogging For a Cause, um evento 100% solidário (o primeiro organizado por bloggers em Portugal), no Red Apple, no Parque das Nações, no qual a totalidade do dinheiro angariado foi doado a cinco instituições de solidariedade social: Grupo Lobo, Bigodes Fofos (os padrinhos da minha gata Jubilee), a Plantar uma Árvore, o Projecto Solidário Bebé e Criança Feliz O Ninho. Como não colocar para trás das costas o ‘alapamento’ e a ‘adição’, ainda que, muitas vezes, involuntária e indecifrável, à teia digital?
 

Blogging_For_a_Cause_2018_Red_Apple_Margarida_Pest


O espaço foi-nos cedido (a Ana esteve sempre connosco), o lanche oferecido (consciente e sustentável) e os goodie bags doados. Os oradores (o Guilherme FonsecaMónica Vale de GatoAna Milhazes, a Fátima Lopes,
Susana Rodrigues, a Cláudia Fonseca, a Eunice Maia e a Sofia Castro Fernandes) partilharam gratuitamente os seus ensinamentos e riqueza interior com as nossas 30 convidadas, sem pedir nada mais em troca do que a nossa atenção plena. As instituições explicaram os seus projetos e de que forma tencionam aplicar o valor reunido: o Projecto Solidário Bebé e Criança Feliz tem, finalmente, os fundos necessários para se transformar numa associação e a Plantar uma Árvore vai reflorestar parte do nosso país com 162 árvores. Tivemos ainda dois voluntários a tempo inteiro (o Gonçalo e o Miguel), duas fotógrafas extraordinárias (a Raquel Ponte e Margarida Pestana) e um videógrafo comprometido (o António Barbot da Vida Macro). Mas a magia só aconteceu, porque cinco mulheres preencheram o seu tempo livre (horas pós-laborais e fins de semana) com uma dedicação invejável. Sim, a verdade é que fomos “grandes, gigantes, com dois metros de altura” – e merecemos gritá-lo a plenos pulmões!
 
"Rendi-me a mais uma tendência do Instagram", "Também já estou a testar o cristal milagroso", “Quero consciencializar para o consumismo exponencial da sociedade moderna, mas a minha conta espelha o quão obcecada estou em mostrar a parafernália de maquilhagem e de roupa que não acrescenta rigorosamente nada à minha vida real?”. Estou cada vez mais saturada deste esbanjamento permanente de bens materiais. No sábado, em pleno Blogging For a Cause, aplaudi de pé uma das nossas participantes, a doce Catarina, sentada na fila da frente, envergando a (minha) cor da felicidade - o amarelo - e uma saia com padrão tweed de tons acastanhados, que, em frente a uma plateia, confessou que todas as peças que trazia vestidas nesse dia eram em segunda mão. Bravo, bravíssimo! Abraçar este estilo de vida é meio caminho andado para colocarmos um ponto final à exploração têxtil. 
 

Blogging_For_a_Cause_2018_Red_Apple_Participantes.


Na conjetura atual, os blogues de lifestyle estão a perder terreno a passos largos, por isso tem crescido esta necessidade de alargar os horizontes aos temas do momento, direcionando, assim, o foco para as questões da "ansiedade", da “cristologia”, da “meditação” e do “amor próprio". Sim, são caminhos que devem ser trilhados – faço-o em nome próprio, sem pudor, por ter sofrido de bullying no trabalho, lidado com crises de ansiedade e bloqueios mentais (vivi de perto com a toxicodependência, a agressão verbal e a doença de Alzheimer, esta última ainda a assombrar a minha família), e aprendido bastante acerca dos malefícios da acumulação de lixo. O que contesto, neste momento, são as incongruências, as imprecisões e as incorreções que se seguem, em catadupa, na partilha desenfreada das temáticas trendy. Porque, convençam-se de uma coisa, de uma vez por todas: escrever sobre batons é bem diferente de dissertar acerca do poder de uma selenita, ok?

Todos os projetos que abraçamos ao longo da nossa vida implicam pesquisa, compromisso, dedicação e resiliência. As marcas com quem almejamos trabalhar devem estar sempre alinhadas com a nossa essência, a nossa ética, a nossa sapiência, a nossa conduta. Sentimos e acreditamos, por isso, que as empresas que se associaram, este ano, ao Blogging For a Cause têm o máximo respeito pelo propósito da sua existência e das suas fundadoras. À semelhança dos inconstânica da vida, também eu já errei nas minhas escolhas de parcerias, nas minhas decisões e nos meus impulsos. Todavia, hoje, olhando para esse pretérito (im)perfeito, são as palavras de My Mistake, de Gabrielle Aplin, que ecoam nos meus pensamentos: "I’m a loser and I self deprecate. So when I falter, well, at least it was my mistake."
 
Nesse sentido, decidi fazer uma nova limpeza às contas que sigo, já que continuo permanentemente a debater-me com esta questão a cada novo scroll: quem começa agora a falar sobre dicas de sustentabilidade, fá-lo com sentido, valores, verdade e paixão? Ou apenas porque virou moda e há interesse em conquistar novas marcas e públicos? Isto, sim, desassossega-me. Lá está, porque não consigo perceber quem são as mulheres por detrás do que publicam – ainda que tenha claramente presente que há uma linha que separa a vida pessoal da íntima. Não sei o que diferencia as “influencers” atuais das demais, qual é a sua real essência, uma vez que os seus feeds parecem-me cada vez mais copy paste uns dos outros, as campanhas digitais que aceitam são, na sua grande maioria, idênticas nos parâmetros que as regem. Terão uma voz digital que realmente se eleve? Vale gostar de tudo, ser a primeira a apanhar a crista da onda, só para as agências ficarem agradadas? É esta a imagem que queremos transmitir à nossa comunidade? É nesta persistente insatisfação que almejamos existir, com os olhos colados ao ecrã e a vida a passar-nos ao lado, acenando-nos ao longe? Para refletir, com o coração.
 
[Todas as fotografias são da autoria da maravilhosa Margarida Pestana.]
 
Mil obrigadas às minhas soul sisters:

Helena Magalhães
Vânia Duarte, Lolly Taste
Andreia Moita, Andreia Moita Blog
Catarina Alves de Sousa, Joan of July

2 comentários

  • Olá Joana. Como uma das organizadoras do Blogging for a Cause, respondo-te: Soa a 'humble brag'? Temos pena. Bem, na verdade não tenho pena nenhuma. Sabes qual é o problema? É que cá em Portugal as pessoas passam a vida a andar em pezinhos de lã, quer no mundo digital quer no "real", com medo de se estarem a gabar. Somos rápidos no gatilho a mandar tudo abaixo com duras críticas e mesmo auto-críticas, mas para elogios toda a gente se cala. É triste.

    Acho ridículo ficarmos quietinhas e caladinhas à espera que alguém repare em nós e nos elogie. Fizemos algo incrível, caramba! Se não nos orgulharmos disto, vamos orgulhar-nos de quê?

    O que nós fizemos não é arma de arremesso de coisa nenhuma. No máximo, é uma tentativa de inspirar outras iniciativas e de mostrar que sozinhos podemos ter dificuldade em fazer a diferença, mas se nos juntarmos, podemos ajudar muito mais.

    Quanto ao que dizes da Joana ser "vítima daquilo que aponta a outras influencers", quando quiseres insultar alguém, ao menos sê específica para que a outra pessoa possa responder-te, se assim quiser.
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